Mergulho

Eu costumo chamar esse estado peculiar de “mergulho”. Um estado no qual todas as coisas parecem uma mistura de realidade, fantasia e fluidez. Os movimentos parecem mais densos e mesmo assim, não conseguimos ter noção de precisão porque estamos mais atentos ao contexto geral daquilo que nos cerca ou à luz que incide em cada gesto. Não sabemos ao certo onde termina o que somos e começa o outro, onde termina o que sabemos ou recordamos e começa o que sentimos, feito a água a cobrir os poros e nos envolver inteira.
Se você ainda não entendeu ao que me refiro, escrevo aqui sobre aquele momento entre o sono e o despertar, aquele momento em que o corpo não acompanha as viagens astrais. Aquele momento em que muitas conexões do subconsciente tomam forma, quando nem a racionalidade é capaz de auxiliar.
Me lembrei como se fosse justamente um sonho. Depois recordei que era uma história que ouvira fazia um tempo, sobre uma personagem que habitava o reino do sonhar. Reino este que por sua vez, possuía uma biblioteca repleta de todos os livros não escritos e gestados durante noites de revolução.
Porém, acho que contei uma mentira. Não exatamente uma mentira, afinal, a verdade não tem a ver com fatos, ao contrário do que muitos pensam. É verdade que me recordei do livro que sequer li e é verdade que também sonhei com ele. Não sei exatamente em que ordem. Ou então, se apenas guardei a sensação como uma ideia que me marcou e ficou lá, maturando quietinha num canto.

Tudo começa quando encontro ela cercada por um labirinto de estantes. Confesso, há um deslumbramento, mas uma certa fobia por não saber até onde aquela coisa colossal poderia chegar. Ela me olhou e sorriu:
– Não há limites para todas as tramas noturnas. Não há limites para o querer humano. Os sonhos são infinitos.
Ela tinha uma aparência jovial contrastada pelas mechas brancas espalhadas ao longo do cabelo negro feito breu. Os olhos extremamente questionadores me deixavam sem graça, mas o sorriso acolhedor me permitiu criar coragem e dizer:
– Eu tenho uma sensação estranha no peito de que perdi algo que não sei bem o que é. Isto está me sufocando. Todas as noites eu me vejo cercada por vozes que eu não sei o que dizem.
– Talvez você tenha deixado algo pra trás. Mas nunca é tarde quando se sabe o que se precisa saber.
Me sentia tão aflita e ela ali a me empurrar charadas. Já estava por um fio quando ela se levantou e fez sinal para que a seguisse. Andamos, andamos por entre o cheiro de… Talvez meu cérebro quisesse dizer poeira. Porém, eu tinha certeza que era algo que eu não podia identificar de forma tão simplista.
– Cheiro de chuva, de terra molhada, cheiro de bolo que dá raspa, cheiro de folha de erva-doce, cheiro de romã estourando na boca, cheiro do perfume dele, cheiro do cabelo dela, cheiro de bolha de sabão, cheiro de maresia, cheiro de flor de despedida, cheiro de um abraço, cheiro dos corpos entrelaçados. Há tanta coisa que você pode reconhecer. É só ter paciência – e ela sorriu novamente quando percebeu que eu ia entendendo e percebendo aos poucos o significado daquilo.
Uma onda de nostalgia me invadiu e eu me segurei um pouco para não chorar.
– Aqui está, o seu livro com todas as palavras não ditas que não puderam calar – ela me entregou um livro de capa dura e pesado.
Abri com certo receio. Qual era a extensão das coisas que eu esquecera? Será que realmente não era muito tarde para relembrar?
Meus olhos picotavam algumas frases aqui e ali:
– Você quer um chá? Eu posso cuidar de você, se deixar. Mas eu não sei pedir. Eu não sei dosar.
– Vamos fugir para Budapeste?
– Tudo que diz me gera esses sorrisos, como se fossem espasmos. Espasmos de felicidade. É isso que importa quando estou no meio da cidade num engarrafamento qualquer, ou perdida entre pensamentos desagradáveis que não posso controlar.
– Será que você não percebe o quanto nos magoa? Será que você não percebe o quanto lhe é desgastante sentir raiva?
– Por que você se apegou tanto a essa mania de ver apenas o lado ruim das coisas?
– Mas eu te amo e não quero que sinta dor.
– Gostaria que pudéssemos passear por aí enquanto você dorme. A gravidade nos manterá no chão?
– Eu vejo cores em você.
– Eu faria absolutamente tudo por você, até mesmo ir embora.
– Eu faria absolutamente tudo por você, e estarei aqui enquanto você estiver.
– Não gosto que você veja como sou frágil. Odeio me lembrar como é entregar tudo sem poder calcular os riscos. Quem consegue calcular os riscos? Eu não sei.
– Mas eu gosto disso, afinal. Já descobri um rastro bonito no caos que habita em mim.
– Eu gostaria de saber te abraçar sem esses embaraços. Ninguém entende que (não por mal) foi me poupado o senso do tato e eu não sei te mostrar a extensão física daquilo que sinto com tanta intensidade. Sinto. Sinto muito. Às vezes isso me afoga.
– Chorei muitas vezes por aquilo que eu não te disse. Chorei muitas vezes por querer te recitar poemas que não cabiam em versos e talvez só façam sentido nesse livro que é lido com a alma livre de qualquer receio.
– O mar, demasia, poesia, sonhos, desenhos, magia, memória, passado, melancolia, livros, filmes, canções, céu, luar, estrelas, serendipity, você, desencontro, encontro, frases soltas que não são nada além de arquétipos. Frases soltas que eu gostaria de guardar numa caixinha junto com estas lembranças que me fazem sorrir. Mas até as lembranças precisam de asas, assim como você. Asas para que tenha teu próprio céu, asas porque te amo. Não importa a distância do vôo, um amor será sempre amável diante da mudança que provoca em nós. E isso resiste a qualquer desmando do tempo.

Será? Como eu poderia ter tanta certeza? Como eu poderia dizer o que vale cada palavra lida e ardente na pele feito ferro em brasa? Dizem que eu era otimista nos meus 20 e poucos anos. Antes, antes de terem ideia do que custava o peso de perdas, de ver estas paisagens ficarem distantes e afrouxar os dedos deixando fugir qualquer certeza que eu, de tola e inocente sabia melhor que ninguém. Certezas que me guiavam e me traziam a tal paciência. Persisto, embora o olfato falhe. O que eu perdi, se não a capacidade de captar todas as mensagens que ficaram gravadas em meu peito como um livro cheio de dedicatórias lapidadas em mármore? Se os sonhos são infinitos e são um reflexo de nossa própria consciência, está tudo entre as estantes da minha vasta casa (este corredor extenso de minha mente que não é sequer escrava daquele casulo inerte em minha cama).

Pulei para a última página, onde estava escrito:
– Ah, eu odeio ser repetitiva! Então devo me calar, porque percebo que tudo aquilo que eu não disse, foi dito no silêncio, nas entrelinhas ou fora do contexto. Espero que você tenha prestado atenção. De qualquer forma, o livro ainda estará aberto para consulta. Basta um desejo para te guiar. Ou uma saudade, quem sabe. Hoje eu me sinto só. Mas tudo bem, ainda estou em paz comigo. Talvez até amanhã, depois, não sei. A vida vem coroar todos os rostos nus. A inocência é pensar que nós somos diferentes daqueles seres indefesos que acabaram de sair do útero. Amor, o berro inicial não fala sobre sofrimento sem fim, apesar das primeiras impressões. O berro inicial nos fala sobre sentir, seja lá o que for. Uma condição inata de todo ser humano. Não tente fugir, porque você vai se perder e a estrada de volta pode ser a mais sinuosa que percorrerá. A estrada em que nos perdemos de nós mesmos é como um labirinto onde não há sequer o eco da voz.

O despertador tocou. Era julho e estava frio. Não sei se foi o susto, mas acordei soluçando como se algo estivesse preso na garganta. Quis cantar uma canção cuja letra eu não recordava. Abri a janela e achei estranho quando senti um cheiro forte cujo aroma eu também não conseguia resgatar na memória. Não sei, as coisas acontecem sem explicação, às vezes simplesmente tomamos uma decisão que pode mudar tudo. Nesse dia, eu resolvi fazer as malas e voltar para aquele lugar onde eu perdera, mas também amara tanto. Hoje eu vejo o quanto eu ganhei em saber enfrentar precipícios. Irreal é acreditar que escalamos montanhas sem fim. Irreal é acreditar que calar vai nos poupar da dor. O que você prefere? Uma biblioteca repleta de poeira, mofo, bolor, ou um salão repleto de recordações, palavras dançantes, sabor e odor? Ainda há tempo. Nunca é tarde quando se sabe o que se precisa saber.

 

Vista Cansada

Tentei rabiscar seus olhos por dias. Cismei que teria que reproduzir a maneira como a luz incidia em você e refletia no meu jeito sem jeito para falar. Sim, odeio palavras repetidas. “Mas quais são as palavras que nunca são ditas?”. Achei que o percurso seria diferente dessa vez, mas o desvio me trouxe ao mesmo lugar, tão familiar, que até posso sentir o gosto de longe. Eu queria ler, mas você fez com que eu fechasse o livro antes da hora. É o que dizem… Acontece. Os anos passam e eu já me acostumei com a vista cansada.

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Para ler ao som de Poison Heart do Ramones.

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Para Viagem

Algumas coisas
Passam como cometas em nossas vidas
Mas quem disse
Que o reflexo
Não fica tatuado na retina
Feito pintura de Monet?

E se nem eu compreendo
A inspiração
Que tenho ao te ver
Mesmo intocável
Não me tento
Pois a poesia sim
É maior
Do que qualquer entendimento

E onde quer que então vá poetizar
Que o tempo
Te dê as pistas
E elementos
Para se achar em meio aos teus
E do avesso
Sempre em verso
Na troca com você
Também se encontrar

E onde a mensagem chegar
Não tenha medo
Escute
Aqueles que olham por você
Anjos que são
Sabem
Que tem constelações pela face
E que resiste em andar pelos cantos desse mundo
Para contemplar
O que não cabe nem mesmo
Nas maravilhas
Que Olavo e Drummond
Insistiram em recitar

Assim, deixe sua marca pelas ruas que cruzar
E que traga algo bom
Até mesmo daqueles com quem se esbarrar
Estamos de passagem
Mas quem vem a todo vapor na viagem
Igualmente sabe
Ou profetizam
Que não é exatamente pressa
Mas não há nada pela metade
Para aquele
A quem
Tudo de humano
Interessa

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Para a pupila de um olhar negro que tantas vezes foi inspiração. E que eu sempre soube que iria partir. 

 

Lua Cheia

Não sei se ásperos são meu dedos
Ou estas mãos que me estendem
De novo eu me perco entre estes vícios
Que não são químicos
Mas são a minha herança
No que tiver de suportar
Mas eu não quero ouvir os seus sussurros
No vão entre a plataforma e o trem
Eu só quero me sentar
Longe destes cavalos selvagens
Que me oferecem liberdade
E me derrubam porque se lembram
Que não andam acompanhados

Deixe-me aqui olhando a paisagem verde que domina todo vale
Mas não chame meu nome outra vez
Às vezes eu só queria ser um pouco mais egoísta
E não olhar para o lado
Como estes animais em cativeiro
Como estes bichos domados
Que choram de noite
No frio
Calados
Mas a minha voz não calam
Nem estes dedos que
Mesmo ásperos
Desenham estradas
A perder de vista

Deixe-me aqui
Deitada sobre a grama
Pois no meio da cerração
Eu espero a lua cheia
Selvagem
São meus instintos
Humana
Só a minha solidão

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Para ler ao som de Wild Horses do Rolling Stones.

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Ele me fotografou em sua rolleiflex

Uma gota caiu no chão e não secou. Depois se multiplicou até que ele sentiu os pés ensopados, ainda sem acreditar. A menina tinha os olhos inundados, e lhe observava como se ele pudesse ser alguma espécie de bote salva vidas. Logo ele, que nem sabia nadar.
Ele acreditava que não queria curar ninguém, salvar ninguém. Não que já não tivesse tentado, mas aí ele percebeu que isso era impossível, entende? Contudo, não sei, seu romantismo impregnado pelas doses erradas talvez tenha feito com que se esquecesse daquela lição.
É certo que nós podemos tentar mostrar para as pessoas o quanto elas são singulares e que tudo bem ser diferente. Na verdade, é isso que nos torna especiais, não é? Mas alguém deveria nos ensinar desde pequenos que temos de conviver com nossos monstros, ao invés de sermos, muitas vezes, criados como crianças mimadas que se transformam em adultos incapazes de lidar com emoções, sentimentos e que acham que podem usar o outro como escudo ou alavanca.
Ele pensava:
– Eu só quis segurar a sua mão e mostrar que a escuridão faz parte daquilo que somos, pois onde há luz, também há sombras. Em alguns momentos, eu tirei a solidão pra dançar, eu imaginei como seria se pudesse abrir as janelas e realmente te ligar, mesmo que já passasse da meia noite. Você não entende, há coisas que eu gostaria de te dizer e gritei em poemas, que depois queimei junto com a lata do lixo. Você se lembra daquele dia em que eu fui a um sarau? Na foto de longa exposição, uma via da cidade cheia de carros…Luzes que igualmente dançavam. Percebi de repente que aquela imagem representava a minha cabeça, os pensamentos que não paravam de correr, e me deixavam numa ansiedade sem fim. No meio de tudo estava você, ali parada, olhando pra trás. Por que? Por que você tinha de me esmiuçar com aqueles olhos tão inquietos? Quem sabe você não esperasse nada de mim, quem sabe só um abraço. Quem sabe estivesse pedindo socorro, quem sabe você estivesse se comunicando através dos gestos e me dizendo que eu também podia chorar e que não havia problema em dar mais do que podiam retribuir.
Logo depois, ele perguntou:
– Por que você está tão triste? Me conte a sua história. Podemos seguir juntos. Pule sem medo.
Na falta de respostas, ele percebeu que precisava encontrá-la de qualquer jeito. Pensou em pedir o telefone, descobrir seu nome, seu endereço.
– Como assim você quer o nome dela? Eles são estranhos, mas não posso simplesmente agir como se não houvesse um contrato implícito. Não posso revelar esse tipo de informação.
– Eu não sou nenhum louco, ok? Só preciso falar com ela. A sua arte me tocou da melhor maneira possível, não vou conseguir dormir. Não era isso que você queria quando estava atrás das lentes?
– Não tirei essa foto. Elas foram enviadas por anônimos, só que eu consegui algumas entrevistas com os modelos. Vou te dar o contato, mas você não pode dizer que fui eu. Inventa alguma desculpa, sei lá, fala que pegou com outra pessoa, alguém que a conhecia, inventa. Você me parece bem criativo pra isso.
Ele correu até o táxi e chegou em casa em 20 minutos. Queria estar sozinho para poder tomar coragem. Pegou o pedaço de papel no bolso e discou com a mão tremendo.
Do outro lado da linha, eu me espantei com o número conhecido que pulava na tela do celular. Não fazia a mínima ideia do motivo dele estar me ligando, ainda mais num final de semana. Será que tinha ocorrido alguma emergência no escritório? Será que alguém teria morrido? Eu nunca mais tinha conversado com ele desde a última e única vez em que saímos pra tomar um café.
– Hello stranger! Olha, você vai achar isso tudo muito maluco, mas por favor, não desligue na minha cara. Você deve estar se perguntando de onde nos conhecemos e isso também vai parecer loucura, mas você já ouviu falar em amor à primeira vista? Sei que geralmente as pessoas precisam pelo menos trocar olhares para que algo assim ocorra, só que isso sequer foi necessário. Na verdade, você me viu sim, me viu como ninguém, e foi justamente quando entrei no salão e notei aquela enorme foto pendurada na parede. Você estava tão bonita e eu adoraria tocar nos seus joelhos enquanto tomamos chá quente na calçada. Por favor, eu preciso te ver, me diga, me diga, por que você estava tão triste?
– Triste? – Eu fiquei chocada, tive certeza que ele estava bêbado. Mas alguns segundos depois, como se fosse estalar o pescoço e de repente percebesse uma incômoda teia de aranha num canto qualquer da sala, eu entendi o que estava acontecendo.
– Triste? Triste mesmo é saber que a sua concepção me prendeu nesta moldura, quando você julga que tudo que vê é algo bem maior. Mas entre o verbo, a imagem e a ação existe alguém que arriscou sair de um quarto sombrio com luzes vermelhas. Sim,
eu me equivoquei pela milésima vez, esperei você ligar e tive que seguir, como sempre, sem uma resposta sequer. Como eu quis te dizer que você estava lindo naquele dia. Como eu quis que você tivesse me dito um terço do que me falou agora. Você já parou pra pensar em quem tirou aquela foto? Você não percebe, não percebe que eu estive ali ao seu lado, no entanto, você jamais quis me ver. Você jamais ousou me olhar e realmente me enxergar. Eu não estava triste, estava apenas constatando como tudo é
tão irônico: a vida não é um filme francês, mas os atores conseguem encarnar um papel e vestir suas idealizações muito bem. E onde fica o amor no meio de tudo isso?

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P.s.: O texto está cheio de referências, como é de costume. Recomendo que assistam os filmes “Closer” (2004), “La Belle Personne” (2008) e ouçam a música “Desafinado” (uma bossa nova composta por Tom Jobim, Newton Mendonça e lançada como single por João Gilberto).

P.s.s.: Em algum momento ficou confuso sobre quem fala o quê? Que bom, a ideia era essa. Não somos todos idealizadores e idealizados? Só mudamos isso quando…

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Escrito-relido. Desnudo-redescubro.

Com certa recorrência é necessário organizar as coisas soltas por aqui. Seja na vida, na caixa de email ou no bloco de notas com mensagens espalhadas pelo HD. Foi assim que novamente vi a ordem no meio de um monte de datas e diálogos que em minha cabeça já confundiam as pernas e saíam cambaleando por aí (embora eu não tenha me esquecido de nada).
Notei, com aquele sorriso, como havia melosidades em meio a pornografia que eu guardei pensando em nós, ou simplesmente em mim (e que geralmente envolvia terceiros). Mas o mais engraçado é que esta última não me causa nenhuma vergonha.
No entanto, aquelas palavras, coisas inocentes… Ah! (quem dera minhas eternas exclamações dissessem tudo).
Relembrei com o espanto inicial: estar apaixonado é perder o valor das horas – como de fato eu dissera. É perder o valor dos julgamentos tácitos. É perder a compostura, as linhas que nem entraram nos buracos das agulhas. Essa coisas, que já quis descrever tantas vezes e sempre ficam pela metade.
Ler outra vez essas cartas (sempre as imaginei assim, você sabe, todos aqui sabem da fantasia) traz um misto de sensações. Não sei, tanta loucura… E pode ter sido apenas um sonho… Já faz tanto tempo. E o que nós somos além de um sonho dentro de um sonho, não é mesmo?¹ É, talvez essa tenha sido a moral mais bonita que já ouvi, porque o que se passa aqui dentro ninguém nunca irá saber. “Sobre nós dois, ninguém vai saber de tudo”. Nem eu, nem você. Porque somos dois, amor, sempre fomos dois. Mas isso não importa – e é ao mesmo tempo, extremamente crucial.
Eu posso voar nos sonhos, e isso poderá ser a maior experiência sensorial que minha memória guardará, até que qualquer dia eu a sinta novamente quando tomamos um café na Avenida Sete.
Ou eu já a tenha revivido quando me beijou os olhos, que mesmo fechados, enxergariam para sempre como o homem pode ser terno e extremamente sentimental. Sinto. Sinto tanto. Senti. Você só me fez perceber o quanto. Quão patente era a minha humanidade, e como eu poderia me expôr feito a obra mais bela que já escrevi, pintei ou compus. O amor é aquilo que somos, somos aquilo que damos, damos aquilo que nem sabíamos ser. E o maior presente, é quando alguém nos recorda isso.

O verbo estará sempre no infinitivo, independente dos pronomes. E foi ele mesmo que, feito minha face despida nestes sonhos, convicto decretou:

– Conjuga-me, antes mesmo de me decifrar, ou então te devoro.

1 – “Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho”
(In “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe)

Desculpa

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Pixei nos muros da cidade o que eu não tinha coragem de te dizer porque achei que correria ao ouvir. Eu sei, o medo é meu maior inimigo. Sempre foi.
O medo de não ser tudo aquilo que queria ser, de não pronunciar aquelas palavras da mesma forma em que as escutava em minha cabeça. Desculpe se eu não soube te mostrar que te admiraria mesmo nos dias em que quisesse ser outros ou outras. Desculpe se eu não te disse como era difícil me conectar com alguém por aí, alguém que realmente pudesse compreender. Desculpe se eu não te mostrei que não queria dançar conforme a música. Desculpe por não ser como estas estacas que batem as cabeças umas nas outras e nem mesmo percebem o choque. Desculpe se eu não te fiz entender que magoar os outros não curaria nada aí dentro. E agora, veja só, você é só mais um no meio da fumaça. Você é apenas um, no meio de tanta gente que eu desconheci. Mas não se preocupe. Uma hora a gente se acostuma. Desculpa.